Existe um grande debate a respeito do papel da indústria na economia brasileira. Muitos analistas têm dito que a perda de participação da indústria no Produto Interno Bruto (PIB) é preocupante, pois uma indústria pujante seria importante para o país crescer com vigor. Um dos argumentos utilizados é que a indústria gera bons postos de trabalho, pagando salários mais altos em comparação com o restante da economia. Será que isso é verdade? Vamos aos dados.
O gráfico mostra o salário médio por setor de atividade em 2009, obtido nas pesquisas domiciliares do IBGE (PNADs). Como o salário depende muito da educação, ao comparamos o salário médio das pessoas em diferentes setores é necessário controlar pelas diferenças de educação entre elas. Assim, a figura compara apenas os salários dos empregados com ensino médio completo, que representavam 28% dos trabalhadores brasileiros em 2009, ou seja, quase 24 milhões de pessoas.
A figura revela que a indústria de transformação paga o mesmo que a média da economia, nem mais, nem menos. Em 2009, os trabalhadores da indústria de transformação recebiam em média R$ 1.077, enquanto o salário médio da economia era de R$ 1.032. Os setores que pagam menores salários são o de serviços pessoais (domésticas e manicures, por exemplo) e a área social (educação e saúde). Vale notar que a maioria dos profissionais na área social tem ensino superior e, portanto, não entram nessa conta. O trabalhador na indústria de transformação ganha praticamente o mesmo que o do comércio, construção civil, agricultura e no setor bancário. Os setores que pagam mais são os de transporte e telecomunicações, a administração pública e, lá em cima, as indústrias extrativas e de geração de água e energia.
Na verdade, mesmo comparando todos os trabalhadores da economia, e não apenas aqueles com ensino médio, o salário na indústria é igual à média da economia. Logo, pode até ser que devamos proteger nossa indústria por outras razões, mas o argumento de que ela gera melhores postos de trabalho não se sustenta. Além disto, entre 1995 e 2009, o salário médio na indústria de transformação declinou 8%, ao passo que na agricultura houve aumento de 25%. Nesse mesmo período, a produtividade da indústria declinou 11%, aumentando quase 70% na agricultura. Como os salários dependem da produtividade, parte da redução do diferencial de salários entre indústria e agricultura reflete a redução no diferencial da produtividade entre esses setores (além de mudanças na composição dos trabalhadores).
O trabalhador qualificado irá ganhar mais onde quer que ele esteja empregado
Na verdade, o salário depende muito mais da educação do que do setor em que a pessoa trabalha. Uma pessoa com nível superior ganha duas vezes e meia mais do que uma pessoa com ensino médio e três vezes mais do que uma pessoa com ensino fundamental. Ainda persiste em algumas cabeças a ideia de que algum setor da economia pode ser a locomotiva da nação, mas no mundo moderno são as pessoas e ideias que fazem a diferença. O trabalhador qualificado irá ganhar mais aonde quer que ele escolha trabalhar e levará consigo sua maior produtividade.
Assim, nossa prioridade é melhorar a qualidade da educação. Mas, enquanto isso não acontece, como podemos aumentar a produtividade da economia, para aumentar todos os salários? Um dos fenômenos econômicos mais interessantes ocorridos recentemente foi o aumento da taxa de crescimento da produtividade na economia americana após 1995, que não foi acompanhada pelos países europeus. Nos EUA essa taxa passou de 1,3% ao ano entre 1980-1995 para 2,2% entre 1995-2006, enquanto na Europa ela declinou de 2,3% para 1,4% no mesmo período. Grande parte do crescimento diferenciado da produtividade nos EUA ocorreu nos setores que usam intensivamente as novas tecnologias de informação e comunicação (TIC), como o comércio (atacado e varejo). Esse é justamente um dos setores mais discriminados no Brasil, mas que emprega 30% dos nossos trabalhadores com ensino médio. Qual o milagre?
As empresas comerciais americanas aproveitaram mais a queda nos preços das novas tecnologias devido à maior concorrência e flexibilidade dos seus mercados, melhor ambiente institucional, mais acesso ao capital de risco, mais educação e melhores práticas gerenciais do que as empresas europeias. Nesses fatores, o Brasil está indo na direção contrária dos EUA. Perspectivas sombrias pela frente!
Naercio Menezes Filho, professor titular - cátedra IFB e coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper e professor associado da FEA-USP, escreve mensalmente às sextas-feiras (email: naercioamf@insper.edu.br)